Análise aprofundada: o lugar das mulheres nos planos de governo para a presidência

Um levantamento minucioso conduzido pelo Instituto Update, que investigou 12 candidaturas à Presidência da República, revela um panorama complexo sobre a priorização e o tratamento das questões femininas nas plataformas políticas. A pesquisa aponta que, embora as propostas direcionadas às mulheres estejam presentes em diferentes espectros políticos, a abordagem se concentra majoritariamente em quatro pilares fundamentais: combate à violência de gênero, saúde feminina e políticas de cuidado. Contudo, o estudo também expõe lacunas significativas, especialmente no que tange à participação política ativa das mulheres, sua presença em posições de poder e decisão, a garantia de segurança em ambientes públicos e a promoção de sua autonomia plena. Essa análise profunda não apenas mapeia as intenções programáticas, mas também provoca uma reflexão crítica sobre a verdadeira dimensão da incorporação das mulheres como sujeitos de direitos e protagonistas no cenário nacional.

A Mulher como Destinatária versus Protagonista de Decisões

A diretora executiva do Instituto Update, Carol Althaller, sintetiza uma das principais conclusões da pesquisa ao afirmar que os programas políticos, embora reconheçam problemas que afetam diretamente as mulheres, falham em avançar significativamente na incorporação delas como sujeitos de decisão. Este ponto é crucial, pois sugere que as candidaturas tendem a enxergar as mulheres mais como beneficiárias de políticas assistenciais ou protetivas do que como agentes capazes de formular e implementar soluções para o país. A análise do Instituto Update foi rigorosa, considerando apenas propostas que explicitamente mencionavam as mulheres. Políticas universais de segurança, emprego, saúde, educação ou transporte, por exemplo, não foram automaticamente contabilizadas como políticas de gênero, a menos que houvesse uma especificação clara de seu impacto ou direcionamento às mulheres.

Althaller também enfatizou a distinção fundamental entre a simples menção de um tema e a apresentação de uma proposta de fato estruturada. Segundo ela, muitos programas contêm referências relevantes, mas carecem de detalhamento essencial sobre a implementação, as metas a serem alcançadas, os instrumentos a serem utilizados ou a articulação com políticas públicas já existentes. Essa superficialidade compromete a eficácia e a credibilidade das promessas, transformando intenções em declarações vagas, com baixo potencial de impacto real na vida das mulheres.

Desafios na Participação Política e Representação em Espaços de Poder

Um dos achados mais notáveis da pesquisa é a disparidade entre o anseio social por maior representação feminina e a escassez de propostas concretas para promovê-la. O estudo concluiu que as mulheres são predominantemente apresentadas como destinatárias de políticas, e não como participantes ativas do poder. Para ilustrar essa desconexão, a pesquisa “Mulheres em Diálogo (2025)”, também do Instituto Update, revelou que impressionantes 72% das entrevistadas concordam plenamente com a necessidade de aumentar a representação feminina em cargos políticos. No entanto, o levantamento dos planos de governo demonstrou uma realidade desanimadora: apenas um dos 12 candidatos presidenciais analisados apresentou uma proposta específica e detalhada sobre a participação político-eleitoral feminina.

Essa proposta singular incluía medidas robustas para combater a violência política de gênero – um fenômeno crescente e preocupante –, além de iniciativas para a formação de candidatas e lideranças femininas, e a revisão de regras relacionadas ao financiamento partidário, visando incentivar a presença de mulheres nas disputas eleitorais. É alarmante constatar que uma das pautas com mais forte apoio entre as mulheres eleitoras está entre as menos presentes e menos desenvolvidas nos programas dos candidatos à presidência. Ampliando o critério para a presença de mulheres em espaços de liderança e decisão em geral, apenas um segundo candidato se mostrou mais abrangente, com propostas de incentivo à liderança feminina em diversas áreas e o compromisso de indicar mulheres para vagas disponíveis no Supremo Tribunal Federal (STF), um passo significativo rumo à igualdade de gênero nas mais altas esferas de poder.

Violência contra as Mulheres: Uma Agenda Disseminada, mas com Lacunas

A violência contra as mulheres, incluindo o feminicídio e a proteção às vítimas, figura como a agenda mais disseminada entre os planos de governo. Nove dos 12 programas analisados – o equivalente a 75% do total – contêm propostas explícitas sobre o tema. Se o critério fosse ampliado para incluir toda proposta sobre violência doméstica, independentemente do recorte de gênero, o número subiria para 10 dos 12 planos. Isso demonstra um reconhecimento generalizado da gravidade do problema, embora as abordagens e as soluções propostas variem consideravelmente.

As propostas abrangem a ampliação de redes de proteção e casas-abrigo para mulheres em situação de risco, a integração entre os setores de segurança, Justiça, saúde e assistência social, o monitoramento eletrônico de agressores, o fortalecimento de medidas protetivas e o endurecimento penal para crimes relacionados. No entanto, o Instituto Update alerta que, enquanto os programas reconhecem amplamente a mulher como vítima da violência, ainda incorporam de forma insuficiente a insegurança que restringe sua circulação e seu uso dos espaços urbanos. Ao analisar os planos sob a ótica da experiência cotidiana das mulheres, surge uma diferença relevante: apenas um candidato relaciona explicitamente a segurança das mulheres à mobilidade e ao transporte urbano, pontos cruciais para a autonomia feminina.

A pesquisa “Mulheres, Polícia e Facções (2026)”, realizada pelo Instituto Update em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, corroborou essa lacuna, revelando dados alarmantes: 79% das mulheres sentem medo ao sair à noite, 59% já deixaram de frequentar determinados lugares por insegurança e 31,4% abandonaram o uso de algum meio de transporte pelo mesmo motivo. Carol Althaller destaca que esses resultados ajudam a ampliar a própria noção de segurança. “Nos grupos qualitativos da pesquisa, quando as mulheres falam sobre o tema, aparecem questões como iluminação pública, qualidade do transporte, prevenção da violência de gênero, cuidado com áreas abandonadas e fortalecimento das redes comunitárias. Ou seja, entram dimensões do cotidiano que muitas vezes ficam fora de uma agenda centrada apenas em policiamento e punição”, explica a diretora executiva, sublinhando a necessidade de uma abordagem mais holística e atenta às realidades vividas.

Autonomia Econômica: Conceitos Distintos e Desafios de Implementação

A autonomia econômica das mulheres, um pilar essencial para a sua independência e empoderamento, aparece em mais da metade dos planos de governo analisados, especificamente em sete dos 12, o que corresponde a 58%. Contudo, o estudo ressalta que o conceito de “autonomia econômica” não se traduz da mesma forma para todos os candidatos. Enquanto alguns podem focar em programas de microcrédito ou incentivo ao empreendedorismo feminino, outros podem priorizar a igualdade salarial, a qualificação profissional, o acesso facilitado ao mercado de trabalho formal ou a expansão de políticas de cuidado infantil para permitir que mais mulheres conciliem trabalho e família. Essa diversidade de abordagens, embora bem-vinda, também aponta para a ausência de uma visão unificada e abrangente que aborde as múltiplas facetas das barreiras econômicas enfrentadas pelas mulheres no Brasil.

A falta de detalhamento nas propostas, como mencionado por Carol Althaller anteriormente, é particularmente crítica neste tema. Para que a autonomia econômica seja efetiva, é preciso ir além da retórica e apresentar planos concretos que incluam metas claras para a redução da desigualdade salarial, mecanismos para combater a discriminação no emprego, acesso a formação e requalificação profissional alinhadas às demandas do mercado, e políticas de apoio à licença-maternidade e paternidade que promovam a corresponsabilidade no cuidado. Sem esses elementos, as propostas correm o risco de permanecerem como intenções, sem se converterem em ações transformadoras que realmente impulsionem a independência financeira e a participação plena das mulheres na economia.

Reflexões Finais: O Caminho para uma Agenda Feminina Abrangente

A pesquisa do Instituto Update oferece um diagnóstico crucial sobre a forma como as candidaturas presidenciais abordam a pauta feminina. Embora haja um reconhecimento dos problemas que afetam as mulheres, especialmente no que se refere à violência, saúde e cuidado, persistem desafios significativos em áreas como a participação política, a representação em espaços de poder e a segurança em ambientes públicos. A lacuna entre o que as mulheres desejam e vivenciam e o que é oferecido nos planos de governo sublinha a necessidade de uma revisão profunda na forma como as políticas de gênero são concebidas e propostas no cenário político brasileiro. É imperativo que as futuras gestões compreendam a mulher não apenas como alvo de proteção, mas como agente de mudança, com capacidade e direito de formular e implementar as soluções que impactarão não só sua vida, mas o desenvolvimento de toda a sociedade.

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