Uso não autorizado de imagens de ribeirinhos por ONG gera denúncia no Amazonas

Novo Airão (AM) – Moradores da comunidade Santo Antônio, localizada dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, em Novo Airão, a cerca de 200 km de Manaus, denunciam a ONG norte-americana Global Thinkers Now por uso indevido de imagens de ribeirinhos e suposta arrecadação irregular de recursos no exterior. Segundo relatos, a organização, mantida por missionários ligados à Igreja Adventista e com sede nos Estados Unidos, tem utilizado fotos e vídeos de moradores sem autorização para solicitar doações em dólares pela internet.

De acordo com os comunitários, apesar das campanhas feitas no exterior com imagens dos moradores, os recursos supostamente arrecadados nunca chegaram à comunidade. Além disso, líderes locais relatam que passaram a sofrer ameaças e intimidações por parte de seguranças contratados pela ONG, após questionarem as práticas da instituição.

Uso indevido de imagens

A vice-presidente da comunidade, a professora Marineuza Miranda Pontes, conta que se surpreendeu ao ver sua própria imagem sendo usada em campanhas online da ONG. “A gente se sentiu lesado. A gente via que eles estavam crescendo. Não que isso gerou inveja ou orgulho, mas queríamos que os comunitários também fossem beneficiados, que se desenvolvessem junto com eles. Essas fotos mostram aí”, afirmou Marineuza.

Outros moradores também relataram o uso não autorizado de suas imagens e vídeos em plataformas estrangeiras, sempre com pedidos de doações para “ajudar os ribeirinhos da Amazônia”.

Promessa de apoio e casas de luxo

A relação da ONG com a comunidade começou em 2015, quando a Associação de Produtores Agrícolas de Santo Antônio doou um terreno de 5 mil m² para a construção de uma casa de apoio, com o compromisso da ONG de trazer benefícios diretos à comunidade.

No entanto, segundo os moradores, o local acabou sendo ocupado por construções de alto padrão, feitas com materiais e mão de obra trazidos de fora da região, o que causou indignação. Além disso, houve desmatamento de áreas nativaspara a realização das obras.

“Para planar terra, desmataram o mato. Tinha todo tipo de vegetação. Se andar ao redor, vai ver itaúba, louro, pé de angelim. Tudo na área onde não foi desmatado. Esses tipos de madeira tinham nessa área onde foi desmatado”, relatou o morador Elino Miranda.

Ação ambiental e embargo

Diante das denúncias de degradação ambiental, a Secretaria de Meio Ambiente do Amazonas (SEMA) aplicou, em junho deste ano, uma multa de quase R$ 60 mil à ONG e interditou as construções realizadas no terreno.

“Nessa ocasião, foi lavrado um termo de embargo e interdição de toda e qualquer atividade, bem como da ocupação do imóvel na área considerada irregular, especialmente onde foi constatada a degradação ambiental”, explicou o secretário Eduardo Taveira. Segundo ele, a ONG recebeu o prazo legal para apresentar sua defesa, que está sendo analisada pelas autoridades ambientais.

Disputa judicial e apoio da Defensoria

Com o agravamento do conflito, os moradores convocaram uma assembleia comunitária para revogar a doação do terreno. No entanto, a ONG reagiu acionando a Justiça do Amazonas. Em sua petição, alegou que “o Brasil não é terra sem lei” e pediu que a discussão fosse retirada da pauta da reunião.

A Justiça atendeu ao pedido da ONG e concedeu uma liminar proibindo qualquer intervenção no imóvel, sob pena de multa diária de R$ 200.

Sem recursos para manter uma disputa judicial com advogados particulares, os comunitários buscaram apoio da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM), que passou a representá-los oficialmente no caso.

Segundo a defensora pública Daniele Fernandes, o caso envolve uso indevido de território em área pública e de preservação. “Uma RDS, na verdade, é uma área pública, é uma área de preservação ambiental. Ela não pode ser destinada a uso e moradia de pessoas que não sejam comunidades tradicionais”, afirmou.

ONG se cala diante das acusações

A ONG Global Thinkers Now é liderada pelo casal Beatriz Augusta (brasileira) e Robert Ritzenthaler (norte-americano). Ambos divulgaram em seus canais metas de arrecadação de milhares de dólares, alegando que os recursos seriam destinados a ajudar comunidades ribeirinhas.

A equipe de reportagem da Rede Amazônica tentou contato com o casal por telefone e e-mail, mas não obteve retornoaté a última atualização desta matéria.

O caso segue em disputa judicial, com os moradores tentando reaver o controle do terreno e garantir que seus direitos sejam respeitados diante das ações da ONG estrangeira.

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